A noite dentro do busão para Cusco foi longa mesmo.
Quase não consegui dormir. Barulho de bebês chorando, cheiro forte que vinha das cholas, uma chola que estava sentada atrás de mim cheia de sacolas ficava “chutando” meu banco ou empurrando as coisas sobre ele, fazendo com que eu não dormisse, o banheiro quebrado, sem paradas para nada, frio dentro do busão, tudo na mais perfeita Lei de Murphy…
Tipo, qdo vc achava que não ia acontecer com vc ou que já tinha ocorrido de tudo, aparecia outra coisa que atrapalhava a viagem.
Ao menos teve um fato engraçado. Dado momento, o motorista parou na fiscalização de mercadorias. Próprio para usar o “pipi-room” no meio do mato. Aí, justamente a chola que chutava meu banco resolveu descer para fazer xixi.
Imagine a cena, ela com aquele vestido enorme, com a saia esbarrando no chão, suja, parando para fazer xixi no meio do nada. Ela se dirigiu até uma moita, levantou o saiote, creio que deve ter abaixado as rouas íntimas (assim espero) e começou a fazer. Todos do busão víamos que ela estava lá, de cócoras, aliviando sua bexiga.
Enquanto ela fazia xixi, o motorista começou a sair com o busão, ela passou a se desesperar. Ainda sentada, gritava – “motorista, por favor, espere un rato”
E ele saindo.
Ela permanecia – “un rato, un ratito, por favor…”
- “Motorista, por favor, un ratito…!!!”
Todos no busão riam da coitada da mulher.
Um sentimento ambiguo emanava dentro de mim. Dó da pobre chola que saía toda mijada correndo atrás do busão gritando “un ratito, por favor” e satisfação porque ela não respeitara meu espaço e agora estava se ferrando.
Mas no fim das contas eu fiquei realmente com pena delas. Afinal elas levam uma vida muito difícil, dura, com muita miséria, falta de ajuda e pouca instrução política. Triste.
Ao fim de tanta confusão, chegamos a Cusco às 05hs30min da manhã, num frio insuportável em que eu tremia os dentes.
A rodoviária de Cusco é algo inacreditável. Muitas, mas muitas pessoas vêm até você tentando lhe oferecer serviço de táxi ou de hotel/albergue, passeios até Machu Picchu ou de qualquer outra coisa que possa lhe interessar.
Pegamos um táxi e fomos até o albergue da rede do qual tínhamos reserva.
O rapaz que nos atendeu estava morrendo de sono e nos atendeu muito mal. Carol ficou ressabiada, e como tinham nos oferecido vários albergues na rodoviária, ela preferiu que procurássemos outros preços pela cidade.
Saímos pelo Centro de Cusco, às 06hs30 da manhã procurando albergues…
Alguns não gostávamos, outros não eram legais…no fim escolhemos um no bairro de San Blás, um bairro com vários bares, albergues, igrejas, etc. Bem legal.
O nome do albergue eu não lembro agora, mas tentarei lembrar ao fim do post.
O albegue tinha café da manhã, sala de TV, internet free, água quente e era muito barato, U$ 5,00 pelo casal (!!!).
Tomamos o café da manhã, bem fraquinho aliás. Aí pedimos para usar a internet. Todos os computadores do lugar estavam quebrados, todos os dois.
Bom, beleza, a dona não avisou, mas beleza.
Fomos até o quarto para dormir um pouco porque estávamos cansados, no entanto, verificamos que estava frio, bem frio.
Percebemos que o quarto tinha mais umidade que a praia…a sensação térmica lá dentro era mais fria do que fora do quarto, ou seja, mó merda, mas beleza.
Como não conseguimos dormir de frio, saímos para usar a net na rua. Mandei notícias para casa, demos um rolê na cidade, tomei um café numa das boas cafeterias da cidade e fomos até a estação ferroviária para comprar as passagens no trem backpacker para Machu Picchu, iríamos no dia 01 de janeiro de 2007.
A Plaza de Armas de Cusco e suas adjacências – acho que das pessoas que têm menos de 35 anos, só eu quem escreve adjacências, mas beleza -, são muito legais, com ótimos bares, cafeterias, restaurantes, lindas igrejas e boas lojas para comprar bugigangas, vale à pena curtir bem a região.
Depois de passear um pouco, comer algo, comprar as passagens para Machu Picchu, voltamos para o albergue para tentar descansar.
Afinal conseguimos, mesmo com a friaca.
À noite fomos a uma pizzaria na Plaza de Armas para comer. Muito boa. Tomamos algumas Cusqueñas, curtimos o visu da praça de cima, tirei vááárias fotos e voltamos para o albergue.
Tudo estaria tranquilo e seria beleza se não estivêssemos ambos com vontade de ir ao banheiro, e ambos com vontade de cagar.
Até aí tudo bem.
O albergue estava muito escuro e os banheiros de lá – todos os dois -, são compartilhados. Como estava mais desesperado, fui primeiro.
Não perdoei. Despejei todo o mal que havia dentro de mim…o negócio foi feio…parecia uma trincheira de tão grande.
Bom, acabei, fiz a higiene e puxei a descarga.
Nada. Nada? NADA!
Tentei de novo…nada!
O pior era que a Carol já estava do lado de fora pilhando para entrar no banheiro, pedindo “PELAMORDEDEUS” para eu sair.
Saí. Mas avisei que minha trincheira ainda estava lá, pois pelo que vi acabara a água no albergue.
Ela respondeu:
- “Não vai dar para segurar, vou ter que fazer em cima!”
Peraí, pausa para os risos, porque enquanto rememoriza eu casco o bico.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Até hoje não acredito que ela teve coragem.
Tal qual um terrorista suicida, um kamikaze, Carol entrou no banheiro com todo odor fético e com a aparência horrível para despejar mais um pouco da imundice da alma humana.
Enquanto Carol fazia o que precisava, duas meninas argentinas batiam na porta querendo usar o banheiro para – ACREDITEM! – escovar os dentes. Coitadas! Imaginem, elas querendo somente escovar os dentes e sendo obrigadas a sentir aquele cheiro descomunal.
Nós contamos a situação e orientamo-las a não entrar no banheiro…ao menos por uns 05 dias!!! Então, elas desistiram.
E lá ficaram, as minhas sobras e as dela, com duas cores enterradas no vaso.
E lá fomos nós dormir sem ao menos lavar nossas mãos, decididos a ir embora do albergue ao amanhecer…esperando que ele chegasse logo.
E esta foi nossa primeira noite em Cusco.

Comentários